sexta-feira, 22/11/2019

Isto podia ser um manual de sedução, mas não é

Não acreditamos em manuais de conquista empoeirados. Por isso mesmo, pegamos na sugestão de um leitor e iniciámos uma investigação sobre a dating etiquette que se pratica por aqui e pelo mundo.



“Venho sugerir um artigo, bem fundamentado, sobre sedução e as diferenças da mesma em vários países. Pelo que li, em certos países nórdicos, nomeada- mente na Dinamarca, são as mulheres que tomam a iniciativa no jogo da sedução, ao contrário de países mais machistas, como Brasil, em que, sobretudo no Nordeste, ainda se limitam a ‘dar sinais’ e cabe ao homem ‘avançar’, o que é uma prática que urge mudar.” Desejo do leitor JET SETTERS é uma ordem e quando este email nos caiu na caixa de entrada, pusemos mãos à obra.

Só que quando o assunto é sedução, nada é assim tão linear e, como diz David Rodrigues, investigador do ISCTE-IUL no CIS-IUL, até pode ter sido o homem a deter o poder nas relações até aqui, com as mulheres a serem encaradas como as donzelas que têm de ser salvas, mas o tempo também nos tem trazido boas doses de igualdade de gênero. “É habitual que homens e mulheres tenham comportamentos específicos, mas também esses padrões têm sido alterados para uma perspectiva em que há maior igualdade de ambos os parceiros”, defende o investigador.

Afinal de contas, há homens, como o nosso caro leitor, que batem o pé ao que em tempos parece ter sido norma. “O fato de alguns homens se sentirem frustrados com essa imposição [de dar o primeiro passo] e de algumas mulheres não concordarem com essa imposição e preferirem tomar a dianteira ao mostrarem o seu interesse, significa que estamos, de alguma forma, a romper com essa visão limitada e restrita acerca do que é ser homem e do que é ser mulher na sociedade”, reforça.

Com uma linha de pensamento semelhante, Gustavo Pedrosa, terapeuta de casal na Oficina de Psicologia, diria mesmo que essa coisa de “dar sinais” é datada, cortesia dos smartphones e das redes sociais. “Tendo em conta as aplicações de comunicação mais utilizadas, por exemplo o WhatsApp, o Messenger e afins, que nos colocam em contato em qualquer lado e a qualquer momento, deixou de fazer sentido haver essa espera por resposta, e diria até que passou a ter um efeito contrário ao inicial, mostrando desinteresse e aumentando a insegurança geralmente sentida por ambos os lados durante a sedução.”

E se é assim, quem é que agora paga a conta do jantar? Há 20 anos, talvez o empregado a entregasse diretamente ao homem, sem réstia de dúvida, mas hoje não é bem assim. Para o terapeuta, a questão só parece continua fazendo sentido entre pessoas ou meios sociais mais conservadores, cuja ideia da mulher com menos capacidade financeira ainda persiste, mas não para as novas gerações. “Com a mudança de papéis e poderes da mulher na sociedade, esta questão não fará muito sentido entre pessoas com menos de 40 anos. O mais natural é que a conta seja dividida pelos dois, ou do ponto de vista mais extremo, paga quem convida, e esta questão até pode ser utilizada como forma de marcar um próximo jantar, escondida com a desculpa ‘para a próxima, eu pago’.”

Seja essa sugestão do homem ou da mulher, porque a iniciativa feminina também é aplaudida. Fazendo um balanço dos casos que lhe passam pelo consultório, o terapeuta conta que muitos homens não se sentem seguros a dar o primeiro passo e outros têm pouca capacidade de leitura do comportamento não verbal e tem de ser a mulher a tomar a iniciativa, para que o homem consiga perceber do seu interesse. “Apenas em casos raros o homem se sente ameaçado por essa reação da mulher ou fica com má impressão.”

David Rodrigues também tem observado e não é de admirar que ainda existam homens (e mulheres também) com uma visão redutora e ultrapassada que não permite conceber que, em pleno 2019, as mulheres possam ganhar ordenados superiores, escolher não casar e ter filhos, ou preferir sair apenas com homens mais novos, simplesmente porque sim. Mas são gostos. “Há pessoas a quem faz sentido manter diferenciação de papéis, seja por que razão for. Mesmo não concordando com esta visão tradicionalista do que é uma relação e dos papéis do homem e da mulher na relação, temos de respeitar os valores e as normas pelos quais cada um escolhe reger-se.” Nós bem dissemos que isto da sedução não era linear.

NÃO SÃO REGRAS, SIM BOM SENSO!

Nada disto significa que tenhamos de acabar com as imposições sociais e os lugares-comuns que nos tentam orientar nesta coisa da conquista e da sedução. As “regras” do jogo mudam, umas perdem força e outras são adaptadas aos contextos sociais e temporais em que se vive, mas elas não deixam de ser necessárias. São essas “regras”, sejam elas quais forem, que nos dão estrutura, noção de normalidade e uma espécie de cobertor para nos sentirmos seguros e confortáveis com novos começos, mesmo que numa primeira fase nos digam para ajustar comportamentos e formas de pensar.

“Perdemos um pouco da nossa individualidade, mas ganha espaço e pontes de contato com a outra pessoa”, diz Gustavo Pedrosa. E, claro, essas “regras” ajudam a transmitir a ideia de bom senso, consideração e respeito pelo outro e, sobretudo, noção dos seus limites e da sua liberdade, aquela coisa que o movimento #metoo recordou a todos que era preciso respeitar à séria. Porque a sedução da insistência, essa sim, está desatualizada e repleta de pó.

Para quem continua confuso, o The Guardian criou uma seção no seu site dedicada a responder a questões de leitores sobre dating pós-#metoo (“devo perguntar se posso beijá-la?” e “quero sair com a minha colega, mas isso não seria assédio?” são só algumas) e, na mesma linha de pensamento, Milena Müller compartilhou os seus pensamentos sobre consentimento e os limites tão poucos espessos entre o “fazer difícil” e o desinteresse, num texto em que também dá resposta às perguntas de uma série de leitores desorientado. 

Numa dessas respostas, ela pegou na frase “se um tipo não te liga é porque ele não te quer ligar”, dita por uma qualquer personagem de um filme, e desenvolveu: “Se eu não recebo notícias de um tipo, ele não perdeu o meu número, ele não está fora em trabalho, nem a sua avó morreu. Se um homem me quiser mesmo voltar a ver, esse filme sugere que ele me vai procurar no Facebook, faltar à tal viagem de trabalho e abandonar a sua avó em fase terminal para o fazer acontecer. E isso é também verdade para as mulheres.”

“A ideia de que as mulheres são jogadoras passivas no sexo e no dating é completamente desatualizada. Se uma mulher quiser ir para casa consigo, muito poucas coisas vão impedir que isso aconteça. Se estiver tentando conquistar uma mulher e não tiver a certeza se ela está interessada, deixe-a em paz. Se ela de fato estiver se fazendo de difícil e ela quiser mesmo fazer sexo consigo, ela vai esquecer qualquer senso de decoro que possa imaginar que ela tem no caminho para o procurar. E da próxima vez que estiver pensando que uma mulher poderá ser demasiado tímida para retribuir o interesse, deixe-a em paz também. Se ela estiver interessada, ela vai procurá-lo. Ela vai encontrá-lo.”

Pode parecer, mas não é o fim da sedução. Só talvez o da sedução como a conhecíamos. Já dizia Tony Parsons, “as mudanças na forma como tratamos as mulheres significam que os homens vão ser menos capazes de intimidar, explorar e as sediar aqueles que tenham zero interesse neles. As relações entre homens e mulheres serão mais gentis, justas e saudáveis. A ideia de que isto significa o fim do sexo é treta. Como diz uma antiga música, ‘the world will always welcome lovers’”. Foi Sinatra que o cantou e nós concordamos.

DESCUBRA AS DIFERENÇAS

Yang Liu nasceu em Pequim, mas se mudou aos 13 anos para Berlim. Entretanto cresceu e hoje é ilustradora e artista gráfica, pegou nas diferenças culturais destas duas cidades tão diferentes e as desenhou em East Meets West, um livro que compila 47 ilustrações que comparam o Ocidente, pintado a azul, e o Oriente, pintado a vermelho. Não que as cores se traduzam num certo e errado, a ideia não é essa, mas lembram-nos como somos tão diferentes a tratar um idoso, expressando uma opinião, lidando com problemas, falando de dinheiro, esperando numa fila ou simplesmente contando a verdade, só porque temos fronteiras a no separando.

Neste East Meets West, Liu não chega a falar de amor, nem de sedução, nem de convidar alguém para sair, mas podia ter feito. É que a cultura também tem algo a dizer sobre a forma como homens e mulheres se devem comportar no flirt e na sedução. Mesmo que a noção de amor enquanto sentimento possa ser, mais ou menos, universal. “Há estudos que tentam compreender o que as pessoas entendem por amor e tem verificado coerência no que se refere ao entendimento que as pessoas têm deste sentimento, o que varia culturalmente é a expressão e os papéis de cada parceiro na relação amorosa”, diz David Rodrigues.

Vamos aos exemplos. Andreia, uma brasileira de 26 anos que vive em Londres, compartilhou o seu: “Apesar de Londres ser uma cidade gigante torna-se difícil conhecer pessoas no dia a dia, por isso, as aplicações de dating são supercomuns aqui. No Brasil, nós não temos muito a cultura dos encontros às cegas e ainda há muito preconceito em relação a aplicação, mas aqui é supernormal, conheço casais já casados que se conheceram no Tinder e eu própria conheci o meu namorado no Tinder.”

Estão juntos há 2 anos e meio, mas antes teve de mudar o chip. “Tive de me adaptar à realidade de me encontrar com um total estranho. Quando nós sentamos no Brasil para tomar um café, é normalmente com alguém que já conhecemos e por quem já temos algum interesse. Aqui não esperam para chegar a casa para adiciona-lo nas redes sociais ou pedir o teu número a um amigo do amigo.” E também não se costuma ficar apenas pelo “café”. “Os dates normalmente envolvem uma atividade, o que eu acho pessoalmente muito mais divertido e, por outro lado, ajuda a quebrar o gelo do primeiro encontro.”

Side note, já reparou que não temos uma tradução fiel para a palavra dating? Na verdade, o conceito parece não existir aqui, não pelo menos de forma tão consensual como acontece nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde é comum ir tendo encontros com múltiplas pessoas ao mesmo tempo, de forma assumida, enquanto não se oficializa nada com ninguém.

Qualquer coisa inimaginável se formos até ao Japão, onde, de acordo com a aplicação de dating Jaumo, as relações se desenvolvem muito devagar, os encontros acontecem em grupo com amigos e, havendo interesse, não há demonstrações de afeto, porque os japoneses tendem a ser mais discretos e reservados. Sobre a Rússia, a mesma aplicação descreve uma dating scene tradicional, em que é arriscado pedir para dividir a conta do restaurante, porque as mulheres ficam ofendidas.

Na Austrália, a revista Insider diz que todos tomam a iniciativa e as “regras” de dating são flexíveis. Na China, ainda menos, se até existem escolas de dating, que ensinam homens heterossexuais a tirar selfies e a se arrumar para impressionar e abordar o sexo feminino – uma espécie de consequência inevitável dos casamentos arranjados, da preferência cultural assumida por bebês do sexo masculino e do gap de gênero que faz com que existam mais 34 milhões de homens do que mulheres na China.

E depois há a Nigéria, onde, o The Economist diz que o Tinder não é tão popular quanto no resto do mundo, mas funciona como forma de juntar jovens mulheres e homens casados, que não se importam de fazer o papel de sugar daddy. E, de repente, a expressão the world is your oyster nunca nos fez tanto sentido.

GLOSSÁRIO: falar de dating em 2019 é também falar de…

Ghosting 

O fenômeno de desaparecer sem deixar rastro depois de alguns encontros tem nome. O ghosting acontece quando alguém com quem estava em vias de se envolver (ou com quem já estava envolvido), deixa de te responder às mensagens, de te atender o telefone e até de te deixar alguns likes, talvez sem nunca de ter dados sinais de que isso ia acontecer. A parte do ghost (= fantasma) é justificada pelo fato dessa pessoa deixar de estar fisicamente presente, mas, tal como um fantasma, a sua presença para no ar, culpa das pontas soltas e perguntas que deixou de responder. Achamos que seria muito mais fácil explicar que não há química, mas há quem simplesmente prefira saltar borda fora.

Curving 

Uma espécie de ghosting, mas menos óbvio, no curving a rejeição se faz com tempo e muitas desculpas esfarrapadas. Neste caso, as mensagens têm resposta, só que podem demorar dias e dias para chegar. As chamadas até podem ser atendidas, mas não todas, e do outro lado até podem te dizer que sim a um “vamos combinar qualquer coisa”, mas é muito provável que isso nunca venha a acontecer. Às vezes, podem ser feitos convites para planos irrecusáveis, mas há última da hora serão sempre cancelados. O final? “Estou com uma agenda lotada” e nunca mais se viram para sempre.

Orbiting

A relação acabou, não existem hipóteses de ressuscitar, mas o scrolling nas redes sociais vai de vento em popa. Eis o orbiting, o fenômeno que acontece quando alguém com quem teve uma relação, e até já deixou de seguir, continua tentando descobrir todos os perfis nas redes sociais e a assistir os seus stories no Instagram, mantendo-o na sua órbita de interesses. Yep, alerta stalker.

Benching

Qualquer coisa como ficar no banco de suplentes digital de alguém. Quem o faz é o bencher e quer manter as opções em aberto. Enquanto não se decide, vai alimentando as expectativas de quem estiver no banco com mensagens e conversas, esporádicas, mas atenciosas. Assim, os benchees vão ficando, mesmo sem terem a certeza se um dia vão a jogo ou não.

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