sexta-feira, 20/12/2019

Laranja de manhã é ouro

…à tarde é prata, e à noite mata – e outros mitos que já deve ter ouvido, mas que não sabe bem de onde vêm, como surgiram e porque é que existem.

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“A principal razão para as pessoas acreditarem em coisas extraordinárias é porque querem e apreciam essas ideias… Quer gostemos, ou não, estas ideias nos dão consolo, nos confortam numa crença lógica, bela e bondosa.”

É assim que Antônio Vaz Carneiro, médico especialista em Medicina Interna, professor catedrático e autor do livro Mitos e Crenças na Saúde, começa a nos explicar de onde surgem os mitos. 

A vontade de escrever este artigo surgiu precisamente depois de ouvir a tal frase do folclore sobre laranjas assassinas e, tendo em conta que sempre comi laranjas depois de o sol se pôr sem nunca me perceber de qualquer efeito negativo – ou qualquer diferença em relação a quando as comia de dia –, deduzi que teria ali base para uma reflexão sobre o assunto. 

E se as crenças existem para nos confortar e, no fundo, facilitar a vida, temos de culpar as nossas famílias por andarem espalhando larachas em forma de fatos: “O fenômeno das crenças e mitos na saúde é mais exuberante dentro do agregado familiar ou em grupos de amigos que pensam semelhantemente. É nas tertúlias que se trocam ideias e opiniões, e algumas das crenças nem sequer se compartilham, por vergonha do ridículo”, confidencia Antônio. 

O médico revela ainda que a vontade (e necessidade) de desmistificar algumas destas crenças – que no livro aparecem divididas por categorias que abordam alimentação, exercício físico, saúde e tratamentos médicos, por exemplo – surge porque acreditar nelas pode ser perigoso, especialmente quando associadas à promessa de um resultado, e dá um exemplo: “Sempre tive asma, tratada com inúmeros medicamentos sem grandes resultados. Quando iniciei tratamentos com os copos de água homeopáticos, nunca mais tive crises.” 

“Não é uma opinião. É evidência científica”, lê-se na capa de Mitos e Crenças na Saúde e o autor prossegue a explicação: “Um outro aspecto importante na gênese de crenças e mitos que nos gratificam é a sua (habitual) simplicidade. Não é mais fácil compreender que estar de pés descalços numa superfície fria no inverno nos vai constipar, versus uma explicação que é a propagação de rinovírus ou coronavírus que se encontram na orofaringe através dos apertos de mão ou contatos próximos?” Se é. Mas, ainda assim, não parecerá igualmente descabido acreditar que se engolirmos uma pastilha elástica ela fica no estômago durante anos?

EXERCÍCIO FÍSICO EMAGRECE

“Durante anos cansei de fazer exercício físico numa tentativa de perder peso, tendo descoberto que só o conseguia fazer comendo concomitantemente menos”, confessa o médico ao admitir que até ele tinha esta crença como verídica. Exercício físico traduz na perda de peso porque queima calorias armazenadas no corpo em forma de gordura. Contudo, sem estar associado a uma dieta hipocalórica (dieta em que são consumidas menos calorias do que a média de consumo recomendada, que é 2.000 no caso das mulheres e 2.500 nos homens), o exercício físico isolado não equivale a uma perda de peso significativa.

A PASTILHA FICA ANOS NO ESTÔMAGO

O fundamento desta crença é que os componentes da pastilha elástica não são degradáveis no ambiente ácido do estômago. A pastilha é composta por uma base, feita de resinas, elastómeros e gorduras, adoçantes, sabores e corantes e esta mistura é, de facto, indigesta, não sendo possível digeri-la por completo. No entanto, ela não fica no estômago, porque os movimentos do tubo digestivo (movimentos peristálticos) movem a base da pastilha através do estômago, intestino delgado e depois grosso, garantindo que ela é expelida dias mais tarde.

O NASCIMENTO DOS DENTES PROVOCA FEBRE

Sendo a febre em bebês um fator de risco e preocupação, a propagação deste mito pode ser perigosa por dar origem a uma negligência que justifica a febre durante o nascimento dos dentes como comum e normal. Na maioria dos casos, a febre em crianças é sintomas de uma infecção viral ou bacteriana que, embora normalmente não necessite de tratamento, não deixa de ser motivo de alerta. Associar a febre (ou seja, o aumento da temperatura para mais de 37,5 ºC) ao nascimento da dentição pode atrasar o tratamento de uma situação mais grave. 

A VITAMINA C AJUDA A EVITAR A GRIPE 

A gripe sazonal aparece todos os invernos e, por sua causa, são emitidos vários alertas como lavar regularmente as mãos, isolamento relativo de quem já está doente e tomar vitamina C. Porém, ao contrário da vacinação, não existe qualquer correlação entre o consumo de vitamina C e a prevenção ou o tratamento de gripes.

AS CORRENTES DE AR CAUSAM CONSTIPAÇÕES

Deve ser um dos grandes concorrentes ao mito mais dito e repetido pelas mães e avós, muitas vezes acompanhado de “veste um casaco porque lá fora está corrente de ar e ainda te constipas!”. Mas, na verdade, as constipações têm origem em mais de 200 subtipos de vírus e, por sua vez, estes vírus são contagiosos por três vias: contato das mãos, gotículas em suspenso no ar e contato direto com o espirro da pessoa infectada. Nem as diferenças de temperatura, sair com o cabelo molhado ou dormir em locais frios causam constipações. 

IR PARA A ÁGUA DEPOIS DE COMER PARA A DIGESTÃO

Outra favorita das avós, que insistem em prender os pequenos impacientes debaixo do chapéu de sol durante as recomendadas duas a três horas. A única explicação teórica para a criação deste mito é que a digestão pode provocar contraturas musculares (cãibras) que nos poderiam impedir de nadar de forma eficaz. Contudo, os levantamentos sobre afogamentos não apontam qualquer relação com ingestão de comida ou digestão (exceto grandes quantidades de álcool). 

O CAFÉ FAZ MAL 

Sendo uma das bebidas mais consumidas pelo mundo fora, o café tem vindo a ganhar fama de bicho-papão, ainda que não exista evidência científica para tal. Um dos seus constituintes é até uma substância comumente usada em fármacos: a cafeína. Contudo, e no meio de 37 mil documentos e estudos publicados sobre o café, é possível concluir que este apenas apresenta um risco para os grupos mais sensíveis (crianças, adolescentes e idosos), que podem não beneficiar do efeito estimulante associado à bebida. Fora estas situações, o café é seguro e os adultos podem consumir entre 3 e 4 cafés (300 a 400 miligramas de cafeína) por dia sem nenhum tipo de preocupação.

A LARANJA MATA

Se olharmos apenas para a interpretação figurada, a famosa frase apenas indica que a parte da manhã será a mais proveitosa para o consumo da laranja. Mas ao que parece nem isso é verdade. Como explica Antônio, a laranja é rica em vitamina C e outros componentes como pectinas e açúcar, não fazendo sentido que a hora em que a consumimos tenha algum tipo de efeito negativo no organismo.

Em Mitos e Crenças na Saúde, Antônio Vaz Carneiro explica alguns mitos na área da medicina demonstrando, através de evidência científica, o porquê de estarem errados. Disponível na Bertrand.

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