terça-feira, 30/01/2018

JFK: entenda o misterioso caso do assassinato do 35° presidente dos EUA

 

O dia da morte de JFK // Créditos: JET SETTERS / Foto: Getty Images

 

2017 foi o ano do centésimo aniversário do nascimento de John Fitzgerald Kennedy, mas são as circunstâncias da sua morte que voltam a dar no  falar. Há documentação sobre o atentado, até aqui classificada como “confidencial”, que ficou disponível. Vamos reabrir o caso: quem não conhece JFK, John Fitzgerald Kennedy, o 35º Presidente dos Estados Unidos da América? O bonito e charmoso presidente que chegou à Casa Branca antes de completar 44 anos, sempre ladeado pela glamorosa primeira-dama Jaqueline Kennedy — num discurso, em Paris, JFK disse que seria recordado naquela visita como “o homem que acompanhou Jackie” à capital francesa —, o presidente que, ainda tão novo, enfrentou, com assertividade e diplomacia, o forte líder da U.R.S.S. Nikita Khrushchev, no pico da Guerra Fria e, ao mesmo tempo, desafiou interesses instalados dentro dos Estados Unidos.

Também todo mundo sabe que Kennedy morreu novo demais, deixando muito por fazer, deixando uma jovem viúva, uma filha e um filho ainda muito pequenos. Sabemos que o presidente foi assassinado e que tudo aconteceu em Dallas, no Texas. Talvez nem todos saibam que o assassinato aconteceu no dia 22 de novembro de 1963, no decorrer de uma viagem ao Texas que Kennedy tinha preparado com o intuito de serenar o ambiente entre a ala liberal e a ala conservadora do Partido Democrata texano. Entre os conservadores, encontrava-se o próprio governador do Texas, John Connally.

Connally era o homem que estava sentado à frente de Kennedy na limusine presidencial durante o cortejo pela cidade que terminaria com o assassinato do presidente. Aliás, o então governador foi alvejado e ficou gravemente ferido com aquela que ficou conhecida como a magic bullet, a “bala mágica”, que terá entrado pelas costas de Kennedy, saído pelo pescoço deste na zona do nó da gravata e penetrado Connally na zona da omoplata direita, arrancando-lhe a quinta costela do lado direito e perfurando o pulmão, antes de atravessar o pulso direito do texano e de, em seguida, ter alojado no interior da sua coxa esquerda. Assim, de repente, parece um diabo de uma bala irrequieta, esta primeira que foi disparada.

Terá sido mesmo a primeira bala disparada? Chegou a altura de falar do que ninguém sabe. Quantos tiros foram disparados ao certo? O relatório da Comissão Warren, nomeada pelo governo dos E.U.A., garante que foram três tiros, um primeiro praticamente inconsequente, um segundo que é o tal da “bala mágica” e um terceiro, o fatal, chocantemente captado pela câmara de Abraham Zapruder nos 26,6 segundos de filme mais estudados e revistos da história do filme. A mesma comissão afirma que o assassinato foi levado a cabo por um só homem, Lee Harvey Oswald, a partir do edifício do Texas School Book Depository, apesar de metade das testemunhas não ter a certeza de que todos os tiros foram disparados daquela direção.

É por existirem tantas dúvidas, tantas incertezas a propósito da história de um assassinato que chocou o mundo que se saúda que o presidente Donald Trump tenha dado a sua anuência à desclassificação de uma parte substancial dos documentos que eram mantidos classificados como confidenciais, “a bem da nação”.

 

DOCUMENTOS DESCLASSIFICADOS

 

O dossiê do assassinato de JFK tem mais de 5 milhões de páginas em depoimentos, relatórios, provas, entrevistas, pareceres de peritos e outros dados recolhidos pelas várias equipas de investigação. Tudo foi reunido num só arquivo, depois do Congresso norte-americano ter aprovado o JFK Assassination Records Collection Act (ARCA), que previa que os vários dossiês das diferentes agências de inteligência do governo federal fossem arquivados em conjunto. Aproximadamente 88% do arquivo estava aberto para consulta, 11% estava parcialmente disponível, ou seja, continha partes omissas ou vedadas, e 1% tinha acesso vedado devido à classificação como “confidencial”.

O ARCA foi aprovado no dia 26 de outubro de 1992 e previa que fosse feita uma reapreciação dos documentos por uma comissão independente, que laborou de 1994 a 1998, e, com base nas conclusões dessa comissão, o presidente em funções daí a 25 anos, isto é, a 26 de outubro do ano passado, tomasse a decisão de manter a classificação das seções vedadas do arquivo. Caso não houvesse tomada de posição por parte do presidente, as seções classificadas perderiam a classificação e ficaria quase integralmente disponível para consulta.

Este “quase” existe porque há duas seções do ARCA que preveem que certas discussões não possam ser tornadas públicas. O dia 26 de outubro chegou e o presidente em funções, Donald Trump, declarou, no próprio dia, que não acionaria a classificação dos documentos como confidenciais. Durante algumas horas, pensou que todo o arquivo elegível iria ficar finalmente disponível para todos, isto, ao mesmo tempo que a CIA e a NSA, entre outras agências ainda mais obscuras, exerciam pressão junto de Trump para que este conservasse, pelo menos, parte ARCA confidencial. O presidente acabou por ceder e manteve confidenciais cerca de 300 documentos, mas libertou mais de 2.800.

 

COMO ACONTECEU

 

Segundo o relatório da Comissão Warren, foi assim que tudo aconteceu. Antes de continuarmos, importa explicar que a Comissão Warren, ou, oficialmente, The President’s Commission on the Assassination of President Kennedy, foi nomeada no dia 29 de novembro de 1963, uma semana após o assassinato. Oficiosamente chamada Comissão Warren por ser liderada pelo presidente do supremo tribunal à altura, Earl Warren, esta comissão apresentou o seu relatório final de 888 páginas em setembro de 1964, menos de um ano depois de ter sido criada. Do relatório, constam as conclusões oficiais acerca dos traços fundamentais da história: que foram disparados três tiros do edifício do Book Depository, que foi Lee Harvey Oswald quem os disparou, que Oswald atuou sozinho e que foi morto, dois dias depois do assassinato, por Jack Ruby, que, segundo a mesma comissão, também atuou sozinho.

Tudo aconteceu na Dealey Plaza, sendo que, em bom rigor, o cortejo circulava na Elm Street — sim, exatamente o mesmo nome da rua do Pesadelo. No carro presidencial, seguiam, para além do presidente e do governador, as mulheres de ambos ao lado dos respectivos maridos, o motorista e um agente da segurança. O carro era uma limusine Lincoln Continental descapotável que circulava a cerca de 16 quilômetros/hora. Sensivelmente a meio do trajeto programado, na Elm Street, dão-se os disparos.

O primeiro tiro que atinge o presidente e o governador do Texas é o segundo a ser disparado. O governador afirma que “estão disparando, vão matar todos”. O terceiro tiro é disparado e, segundo a versão oficial, entra, de trás para a frente, sobre o lado direito do crânio de Kennedy. No filme de Zapruder, no entanto, a cabeça do presidente é nitidamente atirada para trás, o que levanta dúvidas relativamente à versão oficial. Jackie Kennedy sobe, então, para a bagageira da limusine. Em seguida, volta para trás e segura a cabeça do marido, moribundo. Um segurança trepa para o carro e tenta protegê-los a ambos. Esse segurança viria mais tarde a declarar que Jackie terá apanhado um “pedaço do crânio” do marido quando trepou à bagageira. É uma visão horrorosa.

O motorista acelera em direção ao hospital. Horas depois, é declarado o óbito. Pelo caminho, a primeira-dama, em choque, segura a cabeça de JFK, tentando tapar o ferimento e dizendo repetidamente “mataram o meu marido” e uma outra frase que preferimos não reproduzir por ser demasiado perturbadora.

 

ASSASSINO POR MEDIDA

 

O atirador furtivo de Elm Street ganhou rapidamente um rosto e um nome. Lee Harvey Oswald, um jovem ex-marine de 24 anos com formação de sniper. Duas testemunhas os viram na janela do sexto andar do Book Depository com uma espingarda na mão. A sua descrição circulou pelos intercomunicadores e um polícia interceptou apenas 45 minutos depois do assassinato. O agente J.D. Tippit foi morto por Oswald, que acabou por ser detido a seguir, quando ficou encurralado numa sala de cinema. Depois de detido, Oswald afirmou sempre que era inocente, mas nunca explicou por que matou Tippit.

Oswald foi, durante os dois dias que se seguiram, o foco de todas as atenções. Afinal, era ele o assassino do presidente e, nos Estados Unidos, os assassinos exercem um certo fascínio mórbido sobre a opinião pública. Com Oswald, isso nunca poderia acontecer, até porque preenchia vários dos requisitos para poder ser odiado pela nação. Era marxista, casado com uma soviética — ele chegou a viver na União Soviética e, especula-se, contava obter a nacionalidade e se mudar definitivamente para lá — e mantinha alegadamente ligações com Cuba, ligações essas que Donald Trump desenterrou recentemente quando corria à presidência do Partido Republicano com Ted Cruz, cujo pai, Raphael Cruz, surge numa sequência de fotografias ao lado de Lee Harvey, supostamente num encontro de comunistas.

Não foi apenas Oswald quem desmentiu veementemente ter sido o autor do atentado. A sua mulher, Marina Nikolayevna Prusakova, sempre afirmou que o marido teria sido vítima de um embuste para esconder uma conspiração muito maior. Porém, o currículo e todas as provas apontam para Oswald como assassino. Tinha uma espingarda Carcano de 6,5 milímetros, tal como a que foi encontrada no Book Depository; a espingarda continha a sua impressão digital; e havia pegadas suas no prédio.

O que nunca ficou bem explicado foi a sua atuação. Como é que um homem consegue, sozinho, tal como determinou a Comissão Warren, contornar todo um dispositivo de segurança de maneira a conseguir, não um, não dois, mas três tiros limpos sobre o Presidente dos Estados Unidos da América? As teorias de conspiração não se fizeram esperar e é natural que as dúvidas e as questões tivessem surgido. Até porque Oswald não viveu o suficiente para explicar o sucedido e se defender, ou não, das acusações. No dia 24 de novembro de 1963, dois dias depois do assassinato, quando ia ser transferido de um estabelecimento prisional para um outro, com as mais severas medidas de segurança, Jack Ruby, personagem duvidosa, empresário “da noite”, matou com um tiro à queima-roupa. Um tiro que deixou muito por dizer. Segundo a Comissão Warren, também Jack Ruby agiu sozinho, a mando de ninguém, movido apenas pelo “nojo que Oswald lhe inspirava”.

 

O QUE CONTÊM OS NOVOS DOCUMENTOS

 

É neste contexto que as revelações dos novos documentos desclassificados podem vir a ser fundamentais, pois talvez venham lançar alguma luz sobre o caso. As teorias de conspiração variam, na maior parte dos casos, entre o implausível e o pouco provável. Um diz que Kennedy foi morto por um disparo acidental de um dos agentes que seguia na cauda da limusine presidencial, outra que tudo foi orquestrado pelos cubanos, outra ainda que havia um segundo atirador atrás de uma vedação e ainda mais uma que foi o próprio motorista da limusine que puxou o gatilho do disparo fatal. As primeiras revelações desta documentação agora disponível nem sempre são de grande auxílio. O jargão excessivamente técnico e massudo não ajuda à compreensão e, na maior parte dos casos, os detalhes vão se diluindo no meio das tecnicidades. No entanto, algumas coisas parecem ficar mais claras: Lee Harvey Oswald não terá agido sozinho; parece haver, de fato, ligações com Cuba.

Há ainda uma revelação curiosa, um dos agentes da CIA menciona uma chamada feita para Inglaterra e anotada pelo MI5 para o pequeno jornal Cambridge Evening News. Segundo a nota da inteligência britânica, quem ligou terá dito “ao repórter para ligar para a embaixada norte-americana no Reino Unido dizendo que ‘vai acontecer uma coisa grande”, desligando em seguida. A chamada foi feita 25 minutos antes do assassinato. O jornalista nunca chegou a ligar para a embaixada, mas informou o MI5 do sucedido logo que soube do atentado. O MI5 notou ainda uma “estranha confluência” de telefonemas do mesmo tipo, com origem semelhante, feitos para o Reino Unido no decorrer do ano de 1963.

Phillip Shenon, escritor especializado em temas de conspiração e autor, entre outros, de A Cruel and Schocking Act: The Secret History of the Kennedy Assassination, defende, num artigo recente publicado no The Guardian, que acredita ter sido realmente Oswald o assassino do presidente. Defende que, no mínimo, uma teoria da conspiração será revelada e comprovada: aquela que diz que houve encobrimento de informação essencial de uma ponta a outra do processo, desde a sonegação de documentos e de provas até ao silenciamento de testemunhas, atravessando toda a hierarquia de poder dos Estados Unidos. Aguardemos para saber se uma nova verdade vai emergir ou se continuaremos à mercê de um relatório longe de ser unânime de uma comissão inquinada à partida. Dia 26 de abril de 2018, Donald Trump ou quem quer que seja o Presidente dos Estados Unidos da América, irá decidir se os restantes documentos podem ou não ser desclassificados.

 

JACKIE

 

“Haverá grandes presidentes de novo, mas nunca mais vai haver Camelot.” A frase pertence à primeira-dama, então já viúva, e acabou por cunhar a presidência de John Kennedy, à qual a imprensa se referiu inúmeras vezes desde então como “os tempos de Camelot”. Jackie usou o termo para se referir a uma era próspera e brilhante, evocando o musical que então estava na Broadway, Camelot. Nesse musical, havia uma frase que a primeira-dama apreciava especialmente: “Don’t let it be forgot, that once there was a spot, for one brief, shining moment that was known as Camelot” — que, numa tradução livre e muito menos interessante do que o original, significa algo como “que não se deixe esquecer que existiu um dia um lugar, por um breve, brilhante momento, conhecido como Camelot”.

 

O FILME DE ZAPRUDER

 

Uma grande parte das conclusões extraídas pela investigação do caso tem por base os frames de um curtíssimo filme amador da autoria de Abraham Zapruder. Zapruder, que trabalhava perto do trajeto previsto para o cortejo, decidiu sair à rua de câmara na mão e empoleirou-se num pequeno muro. Quando o Lincoln do presidente fez a curva para entrar na Elm Street, Zapruder começou a filmar. Durante os 26 segundos que se seguiram, aconteceu o inacreditável e Abraham registrou tudo em filme. Depois de usado como peça fundamental à investigação, os direitos do filme foram comprados pela revista Life por uma quantia astronômica. Os direitos do filme foram vendidos de novo à família de Zapruder em 1975 pelo valor simbólico de US$ 1,00 (R$ 3,15).

 

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