segunda-feira, 04/11/2019

Da selfie ao bisturi

Que atire a primeira pedra quem nunca editou uma fotografia para ficar mais favorecido. Mas o que separa o normal do obsessivo? E o que é que acontece quando tentamos levar a obsessão para o bloco operatório?

A preocupação com a imagem tem aumentado exponencialmente nos últimos anos e não faltam estratégias para que consigamos aproximar o nosso eu real do eu que idealizamos. Mas se, por um lado, existem caminhos mais longos como dietas, exercício físico e tratamentos estéticos, os mais imediatos têm conquistado popularidade. Imagine que, em apenas alguns minutos, consegue o nariz com que sempre sonhou, um maxilar mais quadrado e uma pele luminosa. Parece tentador, não é? E está à distância de apenas uns cliques na tela.

A edição de imagem não é novidade, o que se alterou foi que passou a estar ao alcance de todos e de forma muito mais fácil e user friendly do que em programas como o Photoshop, por exemplo. A aplicação mais conhecida nestas andanças é o Facetune e acreditamos que o nome não lhe seja estranho, dado que é a aplicação com mais downloads na categoria de fotografia e vídeo em 127 países. Na primeira versão, lançada em março de 2013, podia criar uma pele sem poros, borbulhas e rugas, branquear os dentes e ainda afinar o nariz e o rosto por apenas R$ 19,99. A segunda versão (Facetune 2) chegou às lojas de aplicações em novembro de 2016 e, para além das funções mais básicas que pode usar gratuitamente, por R$ 25,99 pode desbloquear um rol de ferramentas que lhe permitem melhorar-se e ainda uma “câmara mágica” que edita a imagem enquanto está tirando a fotografia, poupando-lhe a pós-produção.

OBSESSÃO & ANSIEDADE

Se editar uma fotografia para nos favorecer parece normal, o mesmo não se pode dizer da obsessão de tornar real a versão retocada. Uma pesquisa divulgada em 2017 pela Academia Americana de Cirurgia Plástica Facial e Reconstrutiva revela que 55% dos pacientes afirmam que ficar bem nas fotografias que publicam nas redes sociais é um dos motivos que os leva a realizar cirurgias plásticas antes dos 30 anos. Estes dados, aliados a uma tendência crescente de pessoas que procuravam intervenções cirúrgicas para se parecerem com a sua versão editada, fizeram surgir o termo “dismorfia Snapchat” – o nome surge do aplicativo que foi a primeira a introduzir, em 2015, os filtros para fotografias –, cunhado pelo cirurgião Tijon Esho.

Em 2018, um relatório elaborado pela publicação JAMA Facial Plastic Surgery analisou a tendência e a conclusão foi que os filtros popularizados por aplicativos como o Snapchat e Instagram podem estar a esbater a linha entre a fantasia e a realidade e a desencadear transtornos dismórficos e perturbações em que as pessoas ficam obcecadas com defeitos imaginados.

“A dismorfia corporal é uma perturbação do foro obsessivo-compulsivo que acaba por se enquadrar nas perturbações de ansiedade.”

O fenômeno, que já captou a atenção de vários cirurgiões e psicólogos, veio abrir o debate sobre a dismorfia corporal (ou síndrome da distorção da imagem). Cristina Sousa Ferreira, psicóloga na Oficina de Psicologia, explica que, embora existam algumas semelhanças, a dismorfia Snapchat não apresenta as mesmas causas e sintomas que a dismorfia corporal: “A dismorfia corporal é uma perturbação do foro obsessivo-compulsivo que acaba por se enquadrar nas perturbações de ansiedade. Há uma fixação numa particularidade física e a pessoa começa a criar rituais que acabam por levar muito tempo porque a pessoa nunca está satisfeita com o resultado. Torna-se numa catástrofe do detalhe físico em que a pessoa está fixada.” Ou seja, enquanto a dismorfia corporal é a fixação num pormenor do rosto ou corpo, na dismorfia Snapchat há a alteração de todo o rosto, que resulta do uso de filtros de alteração de imagem.

“Aquilo que me parece é que isto cola em cima de outras questões que são ansiedades sociais, baixa autoestima… Não é tanto a dismorfia corporal é mais o impacto das redes sociais, por tudo aquilo que permitem, que é não se expor. Não é tanto a imagem, é a exposição, seja ela qual for.” A dismorfia corporal não é uma perturbação comum e apenas 2% da população sofre desta derivação de transtorno obsessivo compulsivo, mas, como explica Cristina, a dismorfia Snapchat acaba por estar ligada à perturbação de ansiedade, sendo esta uma característica comum entre as duas dismorfias.

O que na dismorfia corporal seria ficar três horas em frente ao espelho a pôr base para disfarçar um sinal ou uma borbulha, na dismorfia Snapchat traduz-se em ficar três horas a editar uma selfie antes de publicar e não conseguir sair do computador enquanto não achar que está perfeita. Ainda assim, a ansiedade instala-se com a obsessão de que alguém possa encontrar algum defeito, mesmo depois de publicar a foto.

DA APLICAÇÃO À MESA DE OPERAÇÕES

Biscaia Fraga compartilha um caso, entre vários, em que se recusou a operar o paciente por ter detetado sintomas de dismorfia corporal: “Ontem apareceu um caso que me trazia um relatório de algumas 50 páginas, que já foi operado por três ou quatro cirurgiões diferentes e nunca vai estar contente, é um dismórfico característico, é ele que faz o diagnóstico e indica a terapêutica que quer. Como tal, é um caso bem patente de que o resultado vai ser sempre negativo porque ele vai continuar naquela obsessão compulsiva.”

No caso da dismorfia, Cristina explica ainda que “qualquer alteração ao nível do físico não tem impacto. Eu não a consigo processar, não há um reajuste da minha ideia, porque não é uma coisa real. Não há uma atualização da informação no cérebro para que eu fique tranquila porque já a corrigi. Não é um trabalho ao nível médico, no sentido de correção de defeitos, é um trabalho ao nível psicológico – inclusivamente psiquiátrico, porque uma das coisas que verifica também é que os níveis de serotonina não são os habituais e a serotonina é o neurotransmissor da felicidade, por isso, é como se a pessoa tivesse limitações na capacidade de se sentir bem”.

“Fazer uma cirurgia plástica não é a mesma coisa que ir ao cabeleireiro e uma das coisas que a maior parte das clínicas acaba por fazer é trabalhar com psicólogos que identificam o que é que leva ali aquela pessoa.” 

A alteração que se tem verificado não está no número de cirurgias, mas nos motivos que levam as pessoas para o bloco operatório: “Tudo tem a sua moda. Agora chegámos à fase da tela em que os jovens entre 19 e 30 trazem a imagem filtrada. No caso do nariz é frequente, fazem o estudo em casa, fazem a mudança da imagem e dizem ‘é este nariz que eu pretendo’”, conta o cirurgião Biscaia Fraga e acrescenta que, embora não seja o mais frequente, têm aparecido casos em que a inspiração para a cirurgia vem da edição da própria imagem. Luísa Magalhães Ramos, que também já foi confrontada com imagens filtradas como referência acrescenta que “são situações preocupantes e é muito importante gerir expectativas e explicar aos pacientes que a cirurgia plástica não permite replicar resultados”.

Pedir uma avaliação psicológica antes da realização de uma cirurgia não é um procedimento obrigatório, mas Cristina acredita que não faz sentido avançar com uma intervenção estética sem perceber o que leva a pessoa a procurá-la: “Fazer uma cirurgia plástica não é a mesma coisa que ir ao cabeleireiro e uma das coisas que a maior parte das clínicas acaba por fazer é trabalhar com psicólogos que identificam o que é que leva ali aquela pessoa.” Porém, segundo Biscaia Fraga, os pacientes nem sempre veem com bons olhos a recomendação de uma avaliação psicológica, “o que acontecia era eu dizer a um paciente ‘olhe, eu necessito de uma avaliação psicológica’ e diziam: ‘Eu venho a uma consulta de cirurgia e o doutor está a chamar-me maluco?’ As pessoas não aceitam”.

LEIS & PSICÓLOGOS

A legislação sobre a cirurgia estética não é clara, podendo ser realizada em qualquer idade, mediante autorização dos pais, caso os pacientes sejam menores, e, mesmo nestes casos, a aprovação de um psicólogo continua a não ser um requisito exigido por todos os médicos. “Numa jovem de 15 anos, a maturidade emocional não é a mesma que aos 20 anos de idade. Uma jovem de 15 anos pode ter uma volatilidade emocional muito grande e o que ela gosta num determinado momento, passados dois anos pode estar arrependidíssima. E isso é grave, porque uma cirurgia é um ato agressivo e algumas delas acabam por ser irreversíveis”, conta Biscaia Fraga que, apesar de compartilhar esta opinião, conta também que a presença de jovens de 15 e 16 anos no seu consultório é frequente e que, normalmente, procuram “aumentar os lábios, fazer lipoescultura… não aceitam ter aquele volume ao nível abdominal, na cintura ou nas ancas”.

“A correção de determinadas coisas através dos filtros é uma outra forma de dizer eu quero ser assim.”

Cristina explica que o parecer de um psicólogo serve para perceber o motivo do descontentamento com a aparência e o desejo de modificar a imagem através da intervenção estética e que, em casos em que essa motivação está relacionada com baixa autoestima, a cirurgia raramente resolve o problema: “Se a pessoa faz uma cirurgia porque tem limitações ao nível do seu bem-estar, da saúde física e psicológica, me parece adequado e tem de ser avaliado. Quando se torna obsessivo é quando não satisfaz e a pessoa passa de uma cirurgia para outra. Obsessão é tudo o que é exagerado. E o que é que está por trás disso? É a baixa autoestima? Então significa que, se eu mudar o nariz, eu vou gostar mais de mim? Raramente isso acontece porque o problema não está no nariz, está no processo interno do meu olhar para mim própria e é isso que eu tenho de modificar.”

“Pacientes com expectativas irreais não são candidatos à cirurgia”, afirma Luísa Magalhães Ramos. E enquanto antigamente essas expectativas vinham no formato de recortes de revistas e traziam o desejo de ter os lábios da Brigitte Bardot ou a boca e nariz da Angelina Jolie, atualmente são, muitas vezes, criadas quando a pessoa se habitua a ver a sua imagem retocada e deixa de querer ser confrontada com a imagem real de cada vez que se vê ao espelho.

No entanto, os dados relacionados com a cirurgia estética não revelam um aumento exponencial na procura, o que acontece é que as referências do que os pacientes querem atingir se aproximam de um ideal irreal: “Em determinada altura, tudo aquilo que é divulgado nas redes sociais é a perfeição e a correção de determinadas coisas através dos filtros é uma outra forma de dizer eu quero ser assim, uma forma mais imediata e mais simples.” A psicóloga acrescenta ainda que “não aumentou o número de pessoas que querem fazer cirurgia, o que utilizam é referências diferentes. E eu não sei se isso é mau. Entre querer ser igual a outra pessoa ou querer ser eu com alguns ajustes, se calhar não é mau querer seu eu”.

ESTATÍSTICA DA ESTÉTICA

De acordo com a Sociedade Internacional da Cirurgia Plástica e Estética, os Estados Unidos são responsáveis por 18% das cirurgias estéticas realizadas em todo o mundo, seguidos, no top 5, pelo Brasil, Japão, Itália e México. Porém, quando confrontamos as cirurgias realizadas com o número de habitantes de cada país, surge a verdadeira capital da estética: a Coreia do Sul, com 20 cirurgias por cada mil habitantes (versus o relacionamento americano de 13 cirurgias por cada mil habitantes). A cultura da intervenção estética é tão comum que é tradicional que os pais ofereçam cirurgias como prendas de final de curso e mais de um terço das sul-coreanas com idades entre os 19 e os 29 já terão feito pelo menos uma intervenção estética.

SELFITIS

É o nome do distúrbio associado ao vício de tirar selfies e está dividido em três níveis: se tira fotos a si próprio pelo menos três vezes por dia, mas não as publica, sofre de Borderline Selfitis. Se tira fotos pelo menos três vezes e as publica nas redes sociais, tem Selfitis Agudo. Se sofre de uma vontade incontrolável de tirar selfies e as publica mais de seis vezes por dia, lamentamos, mas sofre de Selfitis Crónico. Foi um grupo de investigadores das universidades indianas Nottingham Trent e Thiagarajar School of Management que desenvolveu este estudo e, embora não possa servir de base para um relatório sobre o distúrbio, porque a amostra usada não é representativa, os resultados foram divulgados pelo mundo inteiro.

TELA, MINHA TELA

Falando de cirurgia estética, o nariz reúne algum consenso entre os motivos que levam as pessoas às clínicas. Mas atenção: a câmara do seu smartphone pode estar a enganá-lo. Um estudo da Universidade de Stanford, elaborado pelos cirurgiões Ohad Fried e Boris Paskhover concluiu que parte das queixas que davam origem a consultas de cirurgia estéticas tinham a ver com defeitos irreais, criados pela distorção da imagem. Isto acontece porque, quando tiramos uma selfie, seguramos o telefone apenas 30 centímetros do rosto, criando a ilusão de um aumento desproporcional de alguns traços. Por exemplo, a base do nariz pode aumentar até 30%, no caso dos homens, e 20%, no das mulheres.

E este não é o único caso em que os smartphones são os culpados por expectativas irrealistas em relação à imagem: em 2018, os utilizadores do recém-lançado iPhone XS repararam que a sua pele parecia modificada nas selfies. A marca foi acusada de usar um “beauty filter” que atenuava rugas e imperfeições e que, aparentemente, não se podia desativar. Segundo a Apple, esta função chama-se Smart HDR e pode ser desligada, mas os utilizadores afirmam que, mesmo assim, continuam a ver os seus efeitos, ainda que de forma mais suave.

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