quinta-feira, 08/11/2018

História de uma obra de arte: “O Pensador”

 

O Pensador, de Auguste Rodin // Créditos: JET SETTERS

 

Faça de conta que esta página não estava ilustrada e que vivia apenas de texto. Mesmo nessas condições, no momento em que lesse “O Pensador” e Rodin, apostamos que uma imagem se formaria de imediato na sua mente. “O Pensador”, escultura criada por Auguste Rodin nos estágios mais avançados do século XIX, é uma das obras de arte mais presentes no imaginário popular – quase ao nível de quadros como “O Grito”, de Edvard Munch, ou de “Mona Lisa”, de Leonardo Da Vinci.

Apesar de hoje ser um artista amplamente reconhecido, Rodin teve um início de carreira pouco auspicioso e chegou a ter a sua entrada na École des Beaux-Arts recusada por três vezes, vendo o seu talento confinado a trabalhos decorativos em casas particulares e edifícios públicos. Apesar da contínua aposta na sua formação de escultor, as certezas de que esse era o caminho chegaram apenas em meados dos anos 1870, em uma viagem a Itália, onde conheceu a obra de outro mestre: Michelangelo. Depois da viagem, não demorou muito a completar a sua primeira grande obra a sério, “A Idade do Bronze”. O reconhecimento também não tardou, assim como as primeiras encomendas para esculturas públicas e monumentos.

Dez anos depois da basilar viagem a Itália, em 1880, Rodin recebeu a solicitação que acabaria por alavancar definitivamente a sua carreira: uma enorme porta para o futuro museu de artes decorativas em Paris – que acabaria por nunca ver a luz do dia naquele local, atualmente ocupado pelo Musée d’Orsay. O artista francês decidiu então fazer o seu contraponto ao famoso portal do Batistério de São João, em Florença – que Michelangelo apelidou de Portas do Paraíso. Inspirada na Divina Comédia, de Dante, a Porta do Inferno, que Rodin esculpiu durante 37 anos (até à sua morte, em 1917) era constituída por diversos episódios da Divina Comédia, tendo, ao centro, uma estatueta de um homem com um semblante pensativo. Na altura, Rodin lhe chamou “O Poeta”, numa referência a Dante – foi este o primeiro nome oficial de “O Pensador”.

Apesar do projeto inicial para o qual fora imaginado nunca ter sido construído, as primeiras versões das esculturas desenhadas para integrarem a Porta do Inferno começaram desde cedo a receber muita atenção, tanto dos críticos como dos colecionadores. Foi o que aconteceu a O Poeta, que a princípio Rodin imaginara com um robe e um chapéu ao estilo florentino – indo ao encontro da imagem de Dante –, ideia que rapidamente abandonou.

“Magro, asceta no seu robe reto, o meu Dante, separado do conjunto, não teria qualquer significado. Eu concebi outro pensador, um homem nu agachado numa rocha contra a qual firma os seus pés. Punho pressionado contra os seus dentes, ele pensa. O pensamento fértil desenvolve‑se lentamente no seu cérebro. Ele já não é um sonhador, é um criador”, explicou Rodin.

Estava dado o mote para que O Poeta desse o seu lugar a O Pensador. A sua nova visão da estátua – que já não personificava a postura de um poeta mas antes captava um momento de introspecção de um homem anônimo – demorou ainda alguns anos a ganhar corpo e só em 1888, em Copenhaga, Rodin permitiu que o público visse finalmente a obra acabada, numa versão em gesso com cerca de 70 centímetros. Finalmente, todos podiam interpretar a mensagem que Rodin queria passar com o seu homem pensante:

“O que faz o meu pensador pensar é que ele não pensa apenas com o cérebro, com a testa franzida, com as narinas dilatadas e com os lábios comprimidos, mas com cada músculo do corpo, costas e pernas, com o punho cerrado e os seus firmes.”

Depois da exultante reação que a estátua de Copenhaga recebeu, Rodin percebeu que o potencial da obra seria maximizado numa escala substancialmente maior. Não se enganou. Quando, em 1904, a sua nova versão, em bronze e com cerca de 1,8 metros, foi revelada no Salão de Primavera, em Paris, o impacto foi de tal forma estrondoso que a venda a um comprador privado instou o crítico de arte francês Gabriel Mourey a iniciar uma campanha para devolver a estátua ao povo francês. Nesse mesmo ano, O Pensador foi erigido em frente ao Panteão, em Paris, mas no ano seguinte acabaria por ser destruído por um homem com distúrbios mentais. Uma nova versão foi fundida em 1906, numa altura em que Rodin tinha já uma ideia diferente do simbolismo da obra:

“Amplia o pensamento das pessoas humildes da terra que são, no entanto, produtoras de energias poderosas. É, em si mesmo, um símbolo social” – ideia essa que acabaria por motivar a retirada da estátua daquele local em 1922, por motivos políticos.

Durante a sua vida, Rodin aprovou 10 estátuas de O Pensador em bronze, que foram exibidas em locais tão díspares como Londres, Leipzig, Berlim, Dresden, Estocolmo ou Poznan, mas, já depois da sua morte, a estátua já conheceu mais de 20 novas versões, tornando‑se um verdadeiro símbolo da cultura popular. As versões monumentais encontram-se habitualmente ao ar livre, por vontade expressa de Rodin, que queria que a estátua fizesse parte do ambiente que a rodeia, sendo exposta aos elementos exteriores mas sem nunca deixar de estar absorta na sua interioridade.

NO TEMPO DE RODIN

Numa exposição inédita que reúne três dezenas de esculturas das coleções do Museu Calouste Gulbenkian e da Ny Carlsberg Glyptotek, de Copenhaga, a galeria de exposições temporárias do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, recebe, de 26 de outubro a 4 de fevereiro de 2019, Pose e Variações – Escultura em Paris no tempo de Rodin. A mostra, que reúne trabalhos de artistas conceituados como Jean-Antoine Houdon, Paul Dubois, Edgar Degas, Jean-Baptiste Carpeaux e, claro, Auguste Rodin, explora as poses‑padrão das esculturas produzidas em França entre o fim do século XVIII e o início do século XX.

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