segunda-feira, 02/07/2018

A verdadeira história por trás de “O Casal Arnolfini”, de Jan Van Eyck

 

“O Casal Arnolfini”, de Jan Van Eyck // Créditos: Reprodução

 

“Johannes de Eyck fuit hic – 1434”, em tradução livre “Johannes de Eyck esteve aqui – 1434”, inscrição que pode ler no espelho no centro do quadro, é a prova aparentemente irrefutável dos únicos dois fatos acerca de O Casal Arnolfini” – uma pintura a óleo em painel de carvalho atualmente em exibição na National Gallery, em Londres – que não têm merecido discussão: o autor é o pintor Flamengo Jan Van Eyck e a data da criação é 1434. Tudo o resto está envolto em mistério e em incontáveis teorias, só possíveis, desde logo, pelo impressionante grau de detalhe muito pouco habitual para uma pintura do século XV.

Admirado durante séculos, e muito provavelmente a inspiração para o também enigmático quadro Las Meninas, de Velásquez, durante muitos anos acreditou-se que “O Casal Arnolfini” retratava o casamento de Giovanni di Arrigo Arnolfini com Giovanna Cenami – há até uma teoria, de Erwin Panofsky, que defende que o quadro serviu como prova legal do casamento. No entanto, não só não é certo que a cena exiba um casamento, como também é provável que os protagonistas não sejam quem sempre se pensou serem, já que documentos recentes provam que Giovanni e Giovanna se casaram 14 anos depois da data do quadro. Mais ou menos consensual é o fato de o homem de chapéu preto e de ar adoentado ser membro do clã Arnolfini, uma família de prósperos banqueiros mercadores que, durante o século XV, fizeram fortuna em Bruges, na Flandres (Bélgica). Para a historiadora Carola Hicks, autora do livro Girl in a Green Room, “o melhor palpite é que sejam Giovanni di Nicolao Arnolfini, que casou com Costanza Trenta em 1426”.

Carregado de detalhes, que apenas podem ser descobertos mediante um escrutínio mais demorado, a pintura esconde também muitos simbolismos que apenas serviram de rastilho para levantar ainda mais questões e diferentes teorias, como a do historiador Craig Harbison, para quem a figura do cão significava a vontade do casal de ter filhos. A presença de símbolos que sugerem fertilidade é, de resto, uma das principais características da pintura, a começar pela aparente gravidez da mulher – na altura em que o quadro foi pintado, era comum pintar as mulheres como se estivessem grávidas uma vez que a fertilidade era uma qualidade essencial numa mulher. Mas há muitos mais: a luxuosa cama com lençóis vermelhos, a imagem de Santa Margarida, protetora das mulheres grávidas, e até o tapete, um bem raro para a altura nos países do Norte da Europa e associado ao quarto de partos.

Apesar de raramente ter tomado partido por qualquer das teorias, limitando-se a enquadrá-las historicamente, Carola Hicks apontou, no seu livro, várias contradições, que, mais uma vez, levantam novas perguntas. Uma das mais gritantes é o ser altamente individualizado e pormenorizado nas suas feições (o mesmo homem foi posteriormente pintado por Van Eyck), mas o mesmo não se aplica ao retrato da mulher, semelhante às santas e Madonnas pintadas pelo artista. Possíveis explicações? Uma das mais populares sugeria que a mulher não estaria fisicamente presente na cena, podendo estar morta ou simplesmente prometida ao homem.

Entre os poucos aspectos que reúnem consenso entre os críticos está em uma condição privilegiada (e abastada) do casal ali retratado, como comprovam o vestido da mulher, de dimensões impressionantes e debruçado com pele de esquilo; o tabardo (casaco medieval que se colocava sobre a armadura) do homem, forrado a pele de marta, um dos materiais mais caros da época, e de um tom arroxeado, outro sinal de riqueza, uma vez que os corantes mais escuros eram mais caros para produzir; as sandálias, no chão junto ao homem, e também elas um sinal de luxo tanto pelo material como pela cor; e as laranjas, na altura uma raridade nos países do Norte da Europa. A própria encomenda do retrato é por si só um sinal de riqueza, já que esse privilégio era apenas reservado às famílias mais abastadas.

Também um sinal de fortuna, uma vez que só as melhores famílias tinham o direito de ver as suas caras refletidas, o espelho é talvez o objeto mais comentado neste quadro e também uma prova evidente da criatividade e do talento de Van Eyck. Pela primeira vez usado como recurso pictórico num quadro, nele vemos o reflexo do casal mas também duas outras pessoas que parecem estar a entrar na sala e que se julga serem uma freira ou uma aia e o próprio Van Eyck.

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