quarta-feira, 30/05/2018

A verdade por trás da “Rapariga com Brinco de Pérola”

 

Meisje Met de Parel // Créditos: Reprodução

 

Na sequência de um acidente que deixará o pai cego, e com a família enfrentando sérias dificuldades financeiras, Griet, uma bela jovem de apenas 16 anos, é forçada a ir trabalhar como empregada na casa do pintor Johannes Vermeer, que, fascinado pela sua beleza e sensibilidade para a arte, faz dela a protagonista de um dos seus quadros. Esta é a história de Rapariga com Brinco de Pérola, o romance de Tracy Chevalier adaptado para o cinema em 2003, num filme homônimo protagonizado por Scarlett Johansson (Griet) e Colin Firth (Vermeer). Ainda que o enredo possa parecer plausível, em toda a história há apenas um elemento não ficionado, o facto de Vermeer ter pintado Rapariga com Brinco de Pérola. Todo o resto está envolto em mistério e em muitas especulações.

Se a jovem retratada por Vermeer não se chamava Griet e não era sua empregada, quem era, afinal? Essa é a pergunta que tem ensombrado o mundo da arte desde que, no início do século XX, o colecionador de arte A. A. des Tombe deixou a obra em testamento, ao museu Mauritshuis, em Haia, na Holanda. Depois da morte de Vermeer, em 1675, o seu trabalho foi esquecido durante praticamente dois séculos, só ao conhecimento do público em meados do século XIX, devido às publicações da autoria do crítico de arte francês W. Thoré-Bürger – o quadro Rapariga com Brinco de Pérola reapareceu apenas em 1881, num leilão em Haia, mas nessa altura apenas dois homens, entre os quais Tombe, mostraram interesse em adquiri-lo, tendo-o feito por uma quantia hoje considerável rasurável.

Também ele uma figura misteriosa, e sobre a qual pouco se sabe, Vermeer nasceu em Delft, no Sul da Holanda, e aí permaneceu durante toda a sua vida, ao lado da mulher e dos filhos, entre os quais Maria, a mais velha de 15 irmãos, que alguns historiadores acreditam ser a misteriosa jovem de Rapariga com Brinco de Pérola. “Vários autores identificaram as figuras que aparecem repetidamente nas suas composições como sendo Vermeer, a mulher, as suas filhas mais velhas, Maria e Lijsbeth, e até a empregada da família (a sugestão do historiador J. M. Montias e a provável inspiração de Chevalier), mas ninguém abordou o uso de modelos familiares de uma forma sistemática, e alguns até rejeitaram essa possibilidade”, escreveu o historiador norte-americano Benjamin Binstock.

Autor do livro Vermeer’s Family Secrets – Genius, Discovery and the Unknown Apprentice, Binstock defende uma teoria, no mínimo, provocadora, não só acreditando que Maria é a rapariga com brinco de pérola, mas também que é ela a real autora de cerca de um quinto das obras atribuídas a Vermeer. Sustentando a sua teoria, Binstock considera que a rapariga retratada naquele que é o quadro mais famoso de Vermeer é a mesma de outras composições suas, como Alegoria da Pintura ou Woman with a Pearl Necklace, “Maria nasceu por volta de 1654 e teria 13, 15 e 16 anos se os quadros em questão forem datados de 1667, 1669 e 1670, respetivamente”, sugere o historiador.

“Outra dimensão crucial”, prossegue Binstock, “envolve cerca de um quinto das pinturas atualmente atribuídas a Vermeer que foram baseadas nos mesmos modelos, objetos e interiores, e que adaptam ou combinam elementos das composições de Vermeer mas não correspondem ao seu nível de mestria técnica, abordagens mais características ou desenvolvimento lógico”. O norte-americano vai ainda mais longe, sugerindo que quadros como Girl with a Flute e Girl With a Red Hat possam ser autorretratos… De Maria Vermeer.

Apesar de lhe serem conhecidos apenas 36 quadros, Johannes Vermeer é hoje considerado um mestre no uso da luz, nomeadamente na técnica do chiaroscuro, tendo fascinado críticos de arte um pouco por todo o mundo com a sua capacidade de transformar os mais mundanos detalhes do quotidiano em detalhadas, mas sempre misteriosas, obras de arte. Noutra conjetura, que muitos teóricos defendem ser bastante plausível, defende-se que Rapariga com Brinco de Pérola não é um retrato, mas sim um tronie, ou seja, uma representação de um tipo de figura em particular, que neste caso específico representaria o exotismo de uma rapariga oriental, uma vez que as holandesas não tinham por hábito usar um turbante. Teorias mais ou menos verosímeis à parte, a verdade é que, muito provavelmente, nunca ninguém saberá a verdadeira identidade desta rapariga. E essa é uma parte essencial do seu encanto.

 

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